Valorização do professor: um sonho possível?

 

O Brasil está longe de colocar a valorização da Educação dentro de práxis consistentes. Em seu livro “Mulher e educação: a paixão pelo possível”, Almeida aponta a feminização do magistério pois, na década de 50 e 60, essa atividade era tida como uma profissão de prestígio social para moças de família, bem como para homens com a mesma ocupação. Todavia, nesse período, o valor do magistério residia mais no saber que o professor detinha do que na remuneração salarial recebida. Atualmente, a educação é mais usada como instrumento de discurso político em campanhas eleitorais, do que como um direito assegurado e garantido por meio de investimentos significativos do PIB no setor e ações efetivas de melhoria. O avanço na educação brasileira, dentre outros aspectos, necessita contemplar a valorização do professor enquanto sujeito produtor e transmissor de conhecimento, bem como profissional da educação.

É uma atividade dialógica ensinar algo para outra pessoa, de maneira que esta compreenda a mensagem transmitida. Isso é algo muito desafiador, e no contexto educacional, além do desafio pedagógico, há também fatores relativos à cultura, à sociedade e à política de cada contexto escolar vivenciado pelo professor. E que sem dúvida difere de instituições de ensino públicas e privadas. Nas instituições públicas o professor enfrenta a falta de apoio ao lidar com recursos didáticos escassos, tais como acesso a livros didáticos para todos os alunos, recursos audiovisuais para enriquecimento das aulas, suporte no enfrentamento de situações de conflito com os alunos. Em muitos casos, os alunos das escolas públicas estão inseridos num contexto de vulnerabilidade social, em que tem comprometidos direitos básicos como segurança alimentar, habitação e convivência doméstica salubre. No contexto do ensino privado, há um processo enredado na visão do aluno-cliente, então torna-se um conflito dar feedbacks no processo de ensino-aprendizagem dos alunos, uma vez que estes são colocados num lugar de poder, que os permite rejeitar as intervenções que de fato auxiliam no seu desenvolvimento. E questões de relações humanas como antipatia ou simpatia, podem determinar a permanência ou não de um professor no seu cargo. Ao tomar a educação como processo dialógico, podemos nos perguntar: é total responsabilidade do professor o processo de ensino-aprendizagem? E quando o aluno tem um papel passivo diante do seu próprio processo de aprendizagem?

É um lugar de muito conforto social esperar pela figura do “professor herói” que, com poucos recursos, é capaz de gerar resultados incríveis e fazer com que seus alunos aprendam os conteúdos e demonstrem bons desempenhos nos testes. Enquanto atividade dialógica, a educação requer esforço de todos os atores envolvidos para que de fato cumpra seus objetivos. No contexto do processo de ensino-aprendizagem, há muito material sobre as melhores técnicas de ensino, mas poucos artigos tratam do papel do aluno durante esse processo e como ele pode sair de uma postura passiva para outra ativa na busca pela construção do seu conhecimento. Isso pode ser constatado ao buscar na internet brasileira artigos que tratem do ‘papel do aluno no processo de aprendizagem’, não há muitos artigos científicos que tratem do tema, ou outras mídias que debatam o assunto de modo mais amplo. Nesse contexto, o professor está na linha de frente entre diferentes atores do contexto escolar como alunos, diretores, coordenadores e pais, de modo que sofre a pressão de todas essas figuras em momentos diferentes da sua atuação. O tema da valorização do professor é um discurso muito atual, embora não seja algo novo. O próprio governo federal possui iniciativas nesse sentido através de medidas como “Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica” que apoia a formação de professores nas seguintes condições: “professores que ainda não têm formação superior (primeira licenciatura); professores já formados, mas que lecionam em área diferente daquela em que se formaram (segunda licenciatura); e bacharéis sem licenciatura, que necessitam de estudos complementares que os habilitem ao exercício do magistério” (Brasil, 2018). É possível perceber que o tipo de apoio oferecido pelo governo brasileiro aos professores da rede estadual de ensino já atesta, reconhece e tenta corrigir a calamitosa situação do Ensino Público, o qual possui ausência de profissionais qualificados para o exercício da função.

Há ainda muitas ações que sociedade pode utilizar promover a melhoria na formação como forma de apoiar o professor, todavia esse apoio deve ser estrutural. É necessário que de fato o professor possua uma previsão de progressão na carreira, e que aumente a parcela do PIB destinada à Educação, e que parte desse montante seja destinado à valorização do professor por meio de incrementos nos seus salários, aumento de benefícios, etc. Os governos do âmbito federal e estadual têm papel preponderante nesse processo, uma vez que suas políticas orçamentárias e diretrizes orientam a atuação de escolas públicas e privadas. É justamente o planejamento orçamentário do âmbitos federal, estadual e municipal que determina quanto dos recursos arrecadados serão destinados ao setor da educação e isso será refletido na melhoria das condições estruturais das escolas públicas, no salários e benefícios dos seus servidores, no aprimoramento profissional do professores e coordenadores pedagógicos, etc. O aumento no salário, por exemplo, evitaria que o professor aplicasse para vaga em diversas escolas para compor sua renda mensal. Assim, parte do seu tempo poderia ser dedicado à sua formação e preparação dos seus recursos didáticos.

A sociedade civil organizada pode estar junto aos profissionais da educação e cobrar dos governantes para que sejam valorizados os profissionais da educação responsáveis pela construção das estruturas sociais e da base para todas as outras as outras profissões.

É possível que os pais de alunos possam estreitar os laços com as escolas do bairro para checar suas necessidades e articulação com a Diretoria de Ensino regional, como forma de ter conhecimento do projeto político-pedagógico da escola de seus filhos, e quais benefícios e programas são destinado a eles por meio da unidade escolar. É importante que os cidadãos cobrem das instâncias menores como as prefeituras, e atuem junto a instâncias superiores como o estado e a federação zelando pelos direitos conquistados e na busca por ampliar o alcance desses direitos. Isso pode ser feito mediante participação e acompanhamento das decisões em câmaras municipais, o que permite conhecimento do poder legislativo mais próximo de seu alcance.

Referências

  • ALMEIDA, J. S. D. Mulher e educação: A paixão pelo possível. São Paulo: Unesp, 1998. Adaptado.
  • BRASIL. Ministério da Educação (MEC). Plano Nacional de Formação dos Professores da Educação Básica. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/plano-nacional-de-formacao-de-professores>. Acesso em: 05 fev. 2018.
  • NÓVOA, A. O passado e o presente dos professores. In: NÓVOA, A. (Ed.). Profissão professor. Porto: Porto Editora, 1995.
Regina Freitas

Bióloga e educadora. Acredito ser possível melhorar a qualidade da relação das pessoas consigo mesmas e com os recursos naturais. Assim, compartilho da ética da Permacultura que envolve cuidar das pessoas, cuidar da terra e a partilha justa dos recursos. Sigo desenvolvendo atividades para tornar esse propósito uma realidade.

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