Do código genético às linhas de código

S abe muita gente me pergunta por que estou fazendo um curso na área de tecnologia. Quando digo que sou bióloga e educadora, e em lugar de estar num curso de pós-graduação, eu estou de novo num banco da graduação estudando tecnologia, as pessoas me olham com certo estranhamento, do tipo: “Que diabos você está fazendo com a sua carreira?”, “Não faz sentido, por que você está aqui?”, “Você é um pouco velha para essa área de tecnologia” e tantos outros questionamentos surgem. Atualmente, saber programar é uma habilidade importante e, embora não seja trivial, é algo que profissionais de outras áreas — que não de tecnologia — precisam começar a olhar com mais acurácia.

Dessa forma, quero dizer que o meu primeiro contato com código sem dúvida foram as aulas de língua portuguesa, nem sempre foi tão fácil decodificar mensagens por meio de símbolos, especialmente quando eu tinha sete anos de idade. Dando um salto na minha biografia, sempre tive grande interesse por meio ambiente e educação, esta pelo seu potencial transformador de vidas e sonhos. Na faculdade, sem dúvida aprendi dezenas de códigos e dentre eles o código genético esteve presente, especialmente na interface em que tecnologia e biologia se encontram: nas áreas de Biotecnologia e Bioinformática. Eu particularmente sempre achei isso coisa de malucos, e de nerds. Na realidade, eu também descobri que sempre fui uma nerd, mas aprendi que há vários tipos de “nerdices”: há pessoas que curtem games, programação, séries e personagens excêntricos, e eu curtia observar bichos, plantas e vestígios deixados por outros seres vivos, lembro que adorava ler sobre dinossauros! Os sistemas que aprendi a olhar, foram os sistemas biológicos e, cara, eles são mesmo muito complexos! Sim, eu só poderia ter cursado Biologia!

Todavia, por que uma bióloga faria um curso em tecnologia? Quando andava pela biblioteca da ESALQ-USP e via livros do tamanho de um Bíblia sobre Html, Java e outras linguagens eu pensava: “Ainda bem que pelo menos isso eu não preciso estudar”, e passava por essas estantes fazendo o sinal da cruz. Mas veja só como o tempo é sagaz, e a vida nos faz trilhar caminhos que jamais seriamos capazes de sonhar: no fim da graduação, durante meus estágios, acompanhei muitos pós-graduandos no laboratório onde trabalhava, e eles usavam um programa de análises estatísticas chamado R. Assim, bem ou mal esses estudantes da pós deviam saber algo de programação, pois o R exige a escrita de scripts na sua própria linguagem para que as análises possam ser feitas. Claramente eu desejo fazer uma pós-graduação, e dar uns “passos para trás” no intuito de aprender mais sobre esse maravilhoso e incrível mundo da programação pode soar estranho à princípio, mas sem dúvida estou na busca por impulsionar outros trabalhos no futuro. Em ciência trabalha-se muito com dados, por isso saber levantar, selecionar e organizar dados relevantes para um determinado problema num contexto específico, é uma habilidade essencial para qualquer cientista e pesquisador. Todavia essa habilidade leva tempo para ser construída, uma vez que é complexa, e em muitos momentos o tempo cronológico de um mestrado, que é cerca de 2 anos, talvez não seja o suficiente para treinar tão bem essa habilidade e adquirir competência nesse sentido. Acredito que essa seja umas das razões pelas quais os estudantes fiquem tão estressados durante esse período, e alguns trabalhos tenham qualidade e relevância questionáveis mesmo em grandes universidades brasileiras.

Para ilustrar como a tecnologia está presente nalgumas áreas da Biologia, trarei alguns exemplos. Em 2017 foi anunciado o eLife, um software voltado para realização de sequenciamento do material genético e que promete a identificação de indivíduos por meio do seu DNA, foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Columbia e do Centro de Genoma de Nova Iorque (Columbia University, 2018). O software roda num instrumento chamado MinION, do tamanho de um cartão de crédito, que puxa filamentos de DNA através de seus poros microscópicos e lê sequências de nucleotídeos, ou as letras de DNA A, T, C, G. Lembra delas?

Na área da educação o que dizer das plataformas que tem surgido, e dos aplicativos para uso dentro e fora da sala de aula? Em junho de 2017 professores da Universidade de São Paulo (USP) lançaram o aplicativo BioExplorer, inspirado no jogo que se tornou viral, o Pokemon Go. Atualmente, “existem quatro bichos disponíveis para serem conhecidos — e não capturados — pelas crianças: o lobo guará, a onça pintada, o carcará e a capivara. Segundo Antonio Saraiva, professor da Escola Politécnica e coordenador do BioComp, a ideia é que no futuro, com as atualizações, o número de animais e plantas brasileiras para serem explorados aumente” (Estadão, 2018). Esse é um exemplo de como o domínio da tecnologia pode ser útil como ferramenta de educação ambiental, conciliando diversão e conhecimento.

Na área ambiental tem saído algumas notícias também bastante interessantes, por exemplo a linguagem de programação Python é muito utilizada na construção de bancos de dados em ArcGis, o qual é um software essencial para análises ambientais. O pagamento por serviços ambientais tem sido apontado como um bom mecanismo para manter e atribuir valor à floresta viva. Hoje em dia podemos pensar em como a tecnologia pode contribuir nesse cenário, temos o modelo de moeda alternativo conhecido como criptomoedas, o bitcoin é o mais conhecido deles, então por que não pensar em adicionar valor às florestas, utilizando-as como moeda? Por que pessoas ou empresas não pagam para sustentar o carbono armazenado na floresta com um mecanismo similar ao do bitcoin? Essa ideia foi aplicada ao setor de energia, a LO3 Energy é uma empresa que corta as organizações intermediárias no setor de energia, e usa blockchain ‘para possibilitar que os donos de telhados com energia solar possam vender seus excedentes de energia para um apartamento no final do quarteirão’ (Deaton, 2018) . Em 2017, houve o primeiro lançamento do mecanismo de busca na internet Ecosia, publicado em Berlim, na Alemanha. Essa iniciativa tem a Google como parceira e doa 80% do excedente da sua renda para organizações conservacionistas sem fins lucrativos, com foco no plantio de árvores, como forma de melhorar o reflorestamento (Wikipedia, 2018). São necessárias algumas perspectivas criativas e inovadoras, e iniciativas semelhantes podem ser projetadas e desenhadas para resolver problemas ambientais no Brasil.

Nossa Regina, mas eu tenho que saber programar? Olha, calma, não péra! Certa vez ouvi uma frase que achei super interessante, a qual sempre cito nas minhas falas: “O problema da comunicação é acreditar que ela existe”, essa frase foi dita pelo jornalista irlandês George Bernard Shaw. Durante o desenvolvimento de um software obviamente você trabalhará em equipes multidisciplinares, todavia o processo de desenvolvimento de um software e tecnologia, ainda que parecido, é um pouco diferente do modo de se pensar ciência ou qualquer outra área de atuação. Assim, entender como pensa um programador já lhe ajuda — e muito! — no sentido de orientar o trabalho e minimizar as chances de frustração ao pedir A e receber B, durante o processo de desenvolvimento. Porque podemos facilmente cair em mecanismos de culpabilização uns dos outros dentro uma equipe. Eu incorro no risco, de pensar apenas no “porquê algo deu errado” e logo começo a procurar por culpados ou a culpar a mim mesma, por exemplo, enquanto na realidade é tudo uma questão de comunicação e formas de pensar e olhar diferente sobre um mesmo problema.

Eu tive e permaneço mesmo com muita dificuldade em aprender a programar. Vejo cursos que prometem ensinar a programar num final de semana, o que de fato é um marketing muito desonesto, pois qualquer pessoa que tenha tentado esse feito sabe o quão difícil é isso. E digo difícil no sentido de algo que requer muito esforço e dedicação, em lugar de pensar nisso como uma missão impossível.

Mas lembro que aprender Biologia não foi mais fácil do que isso. O bom é que não estou sozinha nesse caminho, vez por outra, encontro biólogas e biólogos que fizeram ou estão nessa trilha, e num caminho ou noutro sempre recebi muito ajuda de amigos, colegas e professores.

Espero que esse texto tenha ampliado a sua percepção sobre esses temas e como utilizar a tecnologia a seu favor para alavancar sua carreira. Assim adoraria ouvir de você leitora e leitor o que pensam sobre as ideias que expus aqui. Seguimos juntxs!

Referências



CANALTECH. Software torna o sequenciamento de DNA mais acessível e rápido. Disponível em: <https://canaltech.com.br/saude/software-torna-o-sequenciamento-de-dna-mais-acessivel-e-rapido-104458/>. Acesso em: 31 mar. 2018.

COLUMBIA UNIVERSITY. New Software Can Verify Someone’s Identity by their DNA in Minutes. Disponível em: <http://news.columbia.edu/content/New-Software-Can-Verify-Someones-Identity-by-their-DNA-in-Minutes>. Acesso em: 31 mar. 2018.

DEATON, J. Blockchain: Secret weapon in the fight against climate change. Disponível em: <http://www.responsiblebusiness.com/sdg-action/prosperity-news/blockchain-secret-weapon-fight-climate-change/>. Acesso em: 24 jan. 2018.

ESTADÃO. Inspirado em Pokémon Go, jogo explora fauna brasileira. Disponível em: <http://link.estadao.com.br/noticias/games,inspirado-em-pokemon-go-jogo-explora-fauna-brasileira,70001881547>. Acesso em: 31 mar. 2018.

Regina Freitas

Bióloga e educadora. Acredito ser possível melhorar a qualidade da relação das pessoas consigo mesmas e com os recursos naturais. Assim, compartilho da ética da Permacultura que envolve cuidar das pessoas, cuidar da terra e a partilha justa dos recursos. Sigo desenvolvendo atividades para tornar esse propósito uma realidade.

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